Se para alguns a Reforma Tributária ainda parece um tema distante, para especialistas do setor contábil e jurídico o momento de agir é agora. A transição para o novo sistema, prevista para os próximos dois anos, exigirá das empresas brasileiras uma revisão completa de seus modelos de tributação, simulação de cenários e análise de impactos estratégicos. A Confirp Contabilidade, por exemplo, estruturou um Núcleo de Reforma Tributária dedicado a orientar seus clientes sobre mudanças práticas, desde treinamentos internos e eventos até a revisão de planejamentos financeiros.
Além das mudanças estruturais, outras pautas fiscais ganham força: a tributação de lucros e dividendos, a MP 1.303 — que altera regras de investimentos financeiros — e ajustes relacionados à apuração de créditos e débitos do PIS, COFINS, ICMS, ISS e IPI. Para os empresários, o desafio é manter-se atualizado em meio a uma avalanche de alterações legislativas, evitando surpresas e prejuízos.
“A Reforma impactará toda a estrutura da empresa. A adaptação da contabilidade é fundamental, mas não basta. O empresário precisa compreender as mudanças para tomar decisões estratégicas. Quem não começar a se preparar agora enfrentará sérios riscos de gestão e competitividade”, alertaRichard Domingos, diretor executivo da Confirp Contabilidade.
O que muda com a Reforma Tributária
A Reforma Tributária entra em vigor efetivamente em 2026, mas os impactos mais significativos só serão sentidos a partir de 2027. Um dos principais desafios será a convivência de dois regimes tributários até 2033, durante o período de transição.
“Estamos diante de uma mudança estrutural, que rompe com mais de 60 anos de sistema tributário. Cada decisão tomada hoje terá impacto direto nos resultados de amanhã. O momento de se preparar é agora”, reforça Domingos.
As alterações não se limitam apenas à forma de pagamento de tributos. Elas influenciam sistemas de gestão, processos internos, precificação, contratos e relações comerciais, exigindo um olhar estratégico que vá além da contabilidade.
Três pilares da preparação empresarial
Segundo Domingos, a preparação deve se concentrar em três frentes: Gestão Gerencial e Comercial, Rotinas Administrativas e Sistemas ERP.
1. Gestão Gerencial e Comercial: revisão estratégica
Nesta frente, empresas precisarão repensar a formação de preços, análise de custos e planejamento tributário.
- Formação de preços e custos;
- Levantamento de estoques;
- Análise de mercado e concorrência;
- Planejamento tributário;
- Impactos no fluxo de caixa;
- Controle de despesas pessoais dos sócios.
“As empresas vão ter de repensar como formam preços e custos. O split payment muda toda a lógica de gestão financeira, pois parte do que entra já será destinada automaticamente ao governo”, explica Domingos.
Além disso, segundo Lucas Barducco, advogado da Machado Nunes Advogados, é fundamental simular diferentes cenários de carga tributária e fluxo de caixa:
“O primeiro passo é mapear como a empresa é onerada hoje pelos tributos que serão substituídos e simular a nova carga tributária com CBS e IBS. Isso permite identificar oportunidades de crédito e riscos financeiros”, detalha Barducco.
2. Rotinas Administrativas: revisão de contratos e fornecedores
A Reforma muda a lógica das relações comerciais e exige atenção para contratos, fornecedores e clientes:
- Gastos improdutivos e materiais de uso e consumo passam a gerar créditos tributários.
- Renegociação de contratos considerando a nova carga (IBS/CBS).
- Qualificação de fornecedores e clientes: crédito só é válido se o imposto for recolhido corretamente.
- Treinamento das equipes: comercial, compras, administrativo e faturamento precisam compreender a nova lógica tributária.
“Não adianta olhar apenas para dentro da empresa. A relação comercial muda profundamente, pois o crédito só será válido se o fornecedor realmente recolher o imposto. É preciso revisar contratos, qualificar fornecedores e preparar equipes”, alerta Domingos.
Barducco acrescenta que, do ponto de vista jurídico, é crucial garantir cláusulas contratuais que permitam repasse ou absorção de tributos sem gerar litígios futuros.
“Contratos que hoje parecem adequados podem se tornar problemáticos sob a nova sistemática. A renegociação prévia é um passo estratégico para evitar conflitos”, afirma Barducco.
3. Sistemas ERP: ajustes estruturais
Um dos primeiros impactos práticos será nos sistemas de gestão:
- Cadastro de produtos e serviços.
- Plano de contas contábil.
- Parametrização fiscal, faturamento, compras, custos e tesourariat.
- Integrações bancárias (CNAB, API) e obrigações acessórias.
“Não se trata de uma atualização simples, mas de uma verdadeira reconstrução dos processos de faturamento e escrituração”, explica Domingos.
Lições de reformas anteriores
Especialistas reforçam que antecipação é sinônimo de vantagem competitiva.
- Empresas que simulam cenários antes da regulamentação ajustam preços e margens de forma mais eficiente.
- Mudanças tributárias raramente são lineares; ajustes normativos e interpretações divergentes surgirão naturalmente.
- Governança tributária ativa é essencial para reduzir riscos e aproveitar oportunidades.
“Quem se antecipa tem tempo para testar modelos de precificação e capturar oportunidades enquanto concorrentes ainda reagem”, conclui Barducco.
Compliance e eficiência tributária
A Reforma abre espaço para melhorar a governança corporativa:
- Investimento em sistemas de gestão e governança tributária: visibilidade em tempo real sobre créditos e débitos.
- Alinhamento entre controles internos e estratégias de negociação externas: base da eficiência.
- Revisão de políticas de preços e cláusulas contratuais: para equilibrar competitividade e compliance.
“A conformidade não é apenas uma obrigação, mas uma ferramenta para identificar eficiência e reduzir riscos”, explica Domingos.
Preparação prática: o que as empresas podem fazer hoje
- Diagnóstico tributário completo: entender os tributos atuais e simular CBS e IBS.
- Revisão de contratos: fornecedores e clientes precisam estar alinhados à nova lógica de créditos.
- Treinamento de equipes: contábil, fiscal, comercial e administrativo.
- Ajuste de sistemas ERP: parametrizações, integrações e plano de contas.
- Simulação de cenários financeiros: base, otimista e pessimista.
- Governança tributária contínua: acompanhamento de regulamentações e jurisprudência.
Perspectiva de médio e longo prazo
Empresas que se anteciparem terão vantagem competitiva clara. A adaptação antecipada permite:
- Ajustes de precificação mais eficazes.
- Minimização de impactos financeiros e operacionais.
- Maior capacidade de negociação com fornecedores e clientes.
- Preparação para cenários de interpretação divergente da legislação.
“A antecipação proporciona tempo para alinhar processos internos, treinar equipes e testar estratégias comerciais antes que o mercado inteiro sinta os efeitos da Reforma”, reforça Barducco.
A Reforma Tributária brasileira não é apenas uma atualização legislativa, mas uma transformação estrutural que impactará profundamente como as empresas operam, planejam e negociam. A preparação antecipada é a chave para reduzir riscos, garantir compliance e aproveitar oportunidades estratégicas. Empresários que agirem agora estarão à frente no mercado; os que esperarem enfrentarão desafios significativos, com potencial de perdas financeiras e competitivas.
Perspectiva estratégica com foco financeiro: insights de Benito Pedro
Como visto no texto acima, a preparação para a Reforma Tributária vai além da contabilidade e do compliance: exige uma revisão estratégica da operação e da gestão financeira das empresas. Benito Pedro Vieira Santos, CEO da Avante Assessoria Empresarial, reforça que a mudança é estrutural e impactará diretamente fluxo de caixa, margens e precificação de produtos e serviços.
“Estamos diante de uma mudança estrutural. A Reforma não se limita a atualizar fórmulas de cálculo, mas redefine a maneira como as empresas devem pensar sua operação e sua competitividade no mercado”, afirma Santos.
Entre os pontos centrais da nova sistemática estão a unificação de tributos em um IVA dual — composto pela CBS (federal) e pelo IBS (estadual/municipal) — e o fim da cumulatividade, com tributação no destino do consumo. Para empresas com cadeias produtivas longas ou elevado acúmulo de créditos, isso exigirá ajustes significativos em preços, fluxo de caixa e estratégia de competitividade.
Outro ponto destacado por Santos é a reavaliação da estrutura societária e logística. “Empresas descentralizadas precisam avaliar se a manutenção de várias filiais ainda é eficiente, enquanto grupos centralizados terão de rever contratos de distribuição para evitar custos extras e perda de agilidade. O que for mapeado em 2025 será a diferença entre uma transição tranquila e um improviso caro em 2026.”
O CEO da Avante reforça ainda que a liderança corporativa tem papel decisivo: não basta delegar ao departamento fiscal. CEOs e gestores devem se envolver diretamente no planejamento tributário e estratégico. “As empresas que usarem esse momento para redesenhar processos e fortalecer sua governança sairão mais competitivas do que aquelas que apenas cumprirem exigências legais”, conclui.



