Gestão in foco

Nem tudo é burnout: o desafio real das empresas

A saúde mental entrou de vez na agenda das empresas brasileiras, mas nem tudo é burnout. Em 2026, o tema já não aparece apenas em debates institucionais ou campanhas internas, mas no centro das decisões de gestão, do planejamento estratégico e da avaliação de riscos jurídicos. O desafio agora não é mais reconhecer o problema, e sim saber como agir de forma técnica, prática e sustentável.

Na tentativa de responder rapidamente a um cenário cada vez mais complexo, muitas organizações passaram a enquadrar diferentes situações de sofrimento emocional sob um mesmo rótulo. O resultado é um movimento que, em vez de reduzir riscos, pode ampliá-los, tanto do ponto de vista jurídico quanto da gestão de pessoas.

Os números ajudam a explicar por que o tema ganhou essa dimensão. Entre 2021 e 2024, os afastamentos por síndrome de burnout no Brasil cresceram 493%, passando de 823 casos para quase 4.880. Apenas nos primeiros seis meses de 2025, já foram registrados 3.494 afastamentos, o equivalente a 71,6% de todo o volume de 2024. No mesmo período, o Instituto Nacional do Seguro Social concedeu 472,3 mil auxílios-doença relacionados à saúde mental, incluindo ansiedade, depressão e outras síndromes, de um total de 3,6 milhões de afastamentos.

Esse cenário colocou pressão direta sobre empresas, lideranças, áreas de RH, jurídico e medicina do trabalho. E revelou um ponto sensível: nem todo sofrimento emocional no trabalho é burnout, e tratar tudo da mesma forma pode gerar consequências indesejadas.

 

Os limites do diagnóstico e o complexo conceito de burnout

 

O burnout entrou no vocabulário empresarial e jurídico com rapidez. Reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como fenômeno ocupacional, e não como doença mental pura, ele descreve um estado de exaustão física e emocional causado por estresse crônico no trabalho que não foi adequadamente gerenciado.

Ainda assim, o termo passou a ser usado amplamente para qualquer sofrimento emocional relacionado à atividade profissional. Essa simplificação, embora popular, esbarra em um ponto crucial: nem todo sofrimento emocional configura burnout.

“O burnout não pode ser banalizado como resposta automática a todo quadro de sofrimento emocional. Seu reconhecimento exige rigor técnico, avaliação clínica criteriosa e a efetiva comprovação do nexo causal ou concausal com as condições de trabalho”, afirma Mourival Boaventura Ribeiro, sócio fundador do Boaventura Ribeiro Advogados.

Essa exigência não é meramente formal. Ela contribui para a segurança jurídica das relações de trabalho, protege as empresas contra passivos indevidos e preserva a seriedade dos instrumentos de tutela da saúde mental. Diagnósticos imprecisos ou apressados tendem a estimular judicializações desnecessárias, pedidos indenizatórios frágeis e instabilidade nas relações internas.

 

O limbo previdenciário e seus riscos silenciosos

 

Um desafio concreto emergente para empresas é o chamado limbo previdenciário. Ele ocorre quando o médico do trabalho atesta incapacidade laboral, mas a perícia do INSS nega a concessão de benefício. O trabalhador fica, assim, em um espaço de incerteza, sem salário, sem benefício e sem clareza sobre seu futuro contratual.

“A empresa não pode simplesmente afastar o colaborador sem qualquer forma de remuneração ou encaminhamento adequado. A omissão nesse contexto pode gerar condenações judiciais e passivos financeiros significativos”, ressalta Mourival..

Além do impacto direto na vida do trabalhador, o limbo previdenciário expõe a empresa a riscos jurídicos muitas vezes silenciosos, que tendem a se materializar apenas em processos judiciais ou auditorias trabalhistas e previdenciárias.

 

Saúde mental além da etiqueta: cultura, performance e liderança

 

Diagnosticar burnout é importante. Entender as causas é ainda mais estratégico. Especialistas em gestão de pessoas alertam que o problema não se resume a um laudo médico. Trata-se, muitas vezes, de um sintoma de culturas organizacionais mal estruturadas, lideranças despreparadas, sobrecarga de metas, falta de feedback realista e ausência de suporte adequado.

“Tratar o sofrimento emocional como uma caixa única chamada ‘burnout’ dá uma falsa sensação de cuidado quando, na verdade, se ignora a raiz do problema”, afirma Tatiana Gonçalves, sócia da Moema Medicina do Trabalho.

Tatiana reforça que, sem uma gestão estratégica de pessoas, com processos claros de avaliação, acompanhamento e desenvolvimento contínuo, as organizações acabam reagindo de forma superficial, com programas paliativos, campanhas motivacionais de curto prazo ou benefícios corporativos que não atacam os determinantes reais do estresse.

 

A NR-1 e o novo risco de fiscalização

 

A Norma Regulamentadora nº 1 foi atualizada em 2025 para incorporar, de forma clara, os riscos psicossociais no escopo das obrigações de saúde e segurança do trabalho. Fatores como estresse organizacional, sobrecarga de trabalho, assédio moral e práticas de gestão inadequadas passaram a ser formalmente considerados no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.

Até maio de 2026, a atuação dos auditores fiscais teve caráter predominantemente educativo. A partir deste ano, a norma entra em sua fase de fiscalização efetiva, com potenciais multas e penalidades para empresas que não demonstrem conformidade estruturada. Esses processos não se restringem à existência de documentos, mas avaliam a eficácia das medidas de prevenção e gestão dos riscos psicossociais implementadas.

“A NR-1 não é apenas um requisito legal adicional. É uma redefinição do que significa proteger a saúde e a performance das pessoas no trabalho”, comenta Tatiana.

 

O custo invisível: produtividade e retenção de talentos

 

O impacto da crise de saúde mental vai além de afastamentos formalizados pelo INSS. Estudos indicam que a síndrome de burnout pode afetar até 30% dos trabalhadores brasileiros em diferentes níveis de intensidade, refletindo um desgaste emocional que nem sempre resulta em afastamento formal, mas compromete a produtividade e a performance.

Esse impacto se traduz em múltiplos pontos de custo para as empresas:

  • Redução de produtividade diária
  • Aumento de erros operacionais
  • Maior rotatividade de profissionais (turnover)
  • Dificuldade de retenção de talentos estratégicos
  • Queda de engajamento e criatividade

 

O custo de ignorar esses efeitos ultrapassa o gasto com benefícios previdenciários; ele se manifesta em perda de competitividade, clima organizacional deteriorado e reputação fragilizada perante mercado e talentos.

 

A força dos números e o sinal de alerta

 

Os números recentes mostram que a saúde mental deixou de ser um problema setorial para ser uma pauta macroeconômica:

  • Os afastamentos por burnout crescem quase 6 vezes em quatro anos no Brasil, segundo o INSS.
  • Em 2024, mais de 472 mil trabalhadores se afastaram por transtornos mentais, como depressão e ansiedade.
  • Transtornos mentais hoje representam cerca de 1 em cada 7 afastamentos médicos concedidos pelo INSS.

 

Se incluirmos o fenômeno mais amplo dos transtornos relacionados à saúde mental (além do burnout), o volume de afastamentos ligada a esses fatores alcançou níveis recordes nos últimos 10 anos, refletindo uma tendência que, ao mesmo tempo em que denuncia um problema social, pressiona as estruturas de apoio e gestão das empresas.

 

Medicina do trabalho: estratégia integrada e independente

 

Nesse novo contexto, a medicina do trabalho ganha papel estratégico além do clínico. Não se trata apenas de emitir atestados ou autorizar afastamentos, mas de atuar como um elo entre saúde ocupacional, compliance e gestão organizacional.

Programas de Primeiros Socorros Psicológicos (PSP), por exemplo, podem oferecer suporte imediato em situações de crise emocional, criando uma primeira linha de intervenção que ajuda a reduzir agravamentos clínicos e a orientar encaminhamentos adequados. A prática não substitui atendimento psiquiátrico ou psicológico profissional, mas contribui para atender as exigências da NR-1 e fortalecer a gestão preventiva de riscos.

“Os PSP servem como ferramenta prática para responder logo no início às manifestações de sofrimento emocional, ajudando a contextualizar e estabilizar situações antes que se transformem em afastamentos prolongados ou litígios”, explica Jimi Vicente Beraldi, médico e gestor em saúde do trabalho.

 

Liderança, cultura e governança: além do discurso

 

Não existe fórmula única para gerir saúde mental, mas existe um caminho claro: integrar estratégias de pessoas ao processo de tomada de decisão e à definição de prioridades organizacionais. Isso envolve:

  • Desenvolvimento de lideranças com inteligência emocional
  • Adoção de métricas de bem-estar como indicadores de desempenho
  • Treinamentos específicos para gestores
  • Revisão de metas e formas de mensuração
  • Processos robustos de feedback contínuo

 

Cuidar da saúde mental dos colaboradores não é um gesto de benevolência — é uma ação de governança que reduz riscos, melhora desempenho e aumenta a capacidade competitiva.

 

Conclusão: da reação à prevenção sustentável

 

O Brasil vive hoje uma crise de saúde mental no trabalho que combina fatores sociais, econômicos e organizacionais. A resposta para esse desafio não pode ser fragmentada nem simplista. Ela exige:

  • Diagnósticos técnicos confiáveis
  • Gestão integrada entre RH, jurídico e medicina do trabalho
  • Implementação de medidas de prevenção robustas
  • Adaptação às exigências normativas da NR-1
  • Mudança cultural profunda

Nem todo sofrimento é burnout — mas todo adoecimento é um sinal de que o ambiente de trabalho precisa ser repensado. Em 2026, as empresas que compreenderem isso não apenas reduzirão riscos legais e custos previdenciários: construirão ambientes mais saudáveis, sustentáveis e competitivos.

BOX 1 | Sinais de alerta: como identificar quando há um problema real

Nem todo desconforto emocional no trabalho é burnout — mas alguns sinais indicam que a organização precisa agir com atenção. Especialistas alertam que o risco começa quando manifestações individuais passam a se repetir e ganhar padrão coletivo.

Entre os principais sinais estão:

  • Aumento recorrente de afastamentos médicos por ansiedade, depressão ou estresse
  • Queda brusca de desempenho em profissionais historicamente produtivos
  • Crescimento do absenteísmo e do presenteísmo (quando o colaborador comparece, mas não consegue produzir)
  • Conflitos frequentes com lideranças ou dentro das equipes
  • Rotatividade elevada em áreas específicas da empresa
  • Relatos de sobrecarga constante, falta de clareza de papéis e metas inalcançáveis
  • Uso recorrente de atestados curtos e repetidos, sem diagnóstico claro

 

Alerta importante:
Quando esses sinais aparecem de forma isolada, podem indicar questões individuais. Quando surgem em bloco ou se repetem em determinados setores, o problema tende a ser organizacional — e não clínico.

Saúde mental deixa pistas antes de virar afastamento ou processo judicial.

BOX 2 | O que fazer (e o que evitar) diante de um possível adoecimento

Diante de um colaborador ou equipe em sofrimento emocional, a reação da empresa pode reduzir riscos — ou ampliá-los.

O que fazer

  • Acionar a medicina do trabalho para avaliação técnica e individualizada
  • Manter diálogo estruturado, sem exposição ou julgamento
  • Registrar formalmente ações, encaminhamentos e decisões
  • Avaliar fatores organizacionais: metas, carga de trabalho, liderança e processos
  • Integrar RH, jurídico e saúde ocupacional nas decisões
  • Implementar medidas preventivas previstas na NR-1
  • Oferecer apoio adequado, respeitando limites médicos e legais

 

O que evitar

 

  • Tratar qualquer sofrimento como burnout automaticamente
  • Pressionar o colaborador por retorno sem respaldo técnico
  • Ignorar sinais recorrentes por medo de “abrir precedentes”
  • Transferir toda a responsabilidade para o indivíduo
  • Agir sem documentação ou orientação especializada

 

Diagnóstico apressado protege no curto prazo — e gera risco no longo.

 

BOX 3 | Como a empresa pode se prevenir de fiscalizações e denúncias

Com a intensificação das discussões sobre saúde mental e a entrada em vigor das fiscalizações da NR-1 a partir de 2026, as empresas passam a ser observadas não apenas pelos auditores, mas também pelos próprios colaboradores. Denúncias internas e externas tornaram-se uma das principais portas de entrada para fiscalizações.

O que a fiscalização vai observar

  • Existência e atualização do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR)
  • Inclusão efetiva dos riscos psicossociais no mapeamento de riscos
  • Coerência entre PGR, PCMSO e práticas reais da empresa
  • Histórico de afastamentos por transtornos mentais
  • Condutas de liderança, metas e organização do trabalho
  • Evidências documentais de ações preventivas
  • Relatos de colaboradores e canais de denúncia ativos

 

Como a empresa pode se proteger

  • Mapear riscos psicossociais de forma técnica, não genérica
  • Registrar todas as ações preventivas (treinamentos, avaliações, ajustes de processo)
  • Estruturar canais de escuta e denúncia com tratamento formal e sigiloso
  • Capacitar lideranças para gestão adequada de pessoas e conflitos
  • Integrar RH, jurídico, compliance e medicina do trabalho
  • Revisar políticas internas para evitar práticas discriminatórias ou assédio
  • Manter documentação organizada e acessível para auditorias

 

O erro mais comum

Tratar a NR-1 como uma obrigação burocrática. A ausência de evidências práticas — mesmo com documentos formais — pode ser interpretada como omissão.

Na nova lógica regulatória, não basta dizer que a empresa cuida. É preciso provar.

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